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Próteses: Erros em série

Estima-se que entre 20 mil e 25 mil mulheres tenham se submetido no país, de 2004 a 2010, a cirurgias plásticas para o implante de próteses de silicone nos seios. Embora nesse universo se contabilizem pacientes que procuraram atendimento médico para corrigir mutilações involuntárias decorrentes de câncer de mama, a parte substancial da estatística diz respeito a pessoas que buscam efeitos meramente estéticos pelo aumento do volume dos seios. Essa preocupação das brasileiras com a estética corporal — qualquer que seja a
motivação que as estimule a fazer plástica — levou o jornal francês “Le Monde”, em reportagem publicada em janeiro, a considerar o Brasil um país da cirurgia estética, reino dos seios de silicone. Não por acaso, a informação de que, no fim do ano passado, a França havia
recomendado a retirada preventiva das próteses mamárias da marca PIP, amplamente aplicadas no Brasil (juntamente com a holandesa Rofil, também condenada), transformou-se num problema médico de grande repercussão. Por tabela, expôs leniências do poder público para salvaguardar a saúde de pacientes em face de falhas na fiscalização de procedimentos médicos e uso de material cirúrgico, como se viu, impróprio para esse tipo de intervenção. Por fim, abriu uma inescapável discussão sobre limites da ética médica.  É importante a decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de, uma vez tendo sido espalhado o medo entre as mulheres que se submeteram a cirurgias com as próteses condenadas, determinar que aquelas cujos implantes sofreram rupturas sejam atendidas na rede pública ou pelos planos de saúde. Também é positiva a iniciativa, por enquanto apenas anunciada, de criar um cadastro de todas as próteses mamárias do país. Mas soam como trancar a porta do banco depois de o cofre ter sido arrombado.
Tal descuido com óbvias, e necessárias, ações preventivas não é episódico. É um procedimento usual num governo em que o aparelhamento de órgãos públicos se sobrepõe à perícia, a política tem prioridade sobre a qualidade técnica. Preso a amarras dos compromissos partidários, o governo federal adota esse comportamento padrão diante de situações de emergência — caso, por exemplo, da demora em enfrentar os graves danos provocados por chuvas fortes no Rio de Janeiro. Em vez de prevenção, medidas paliativas e, diante dos estragos, tentativas tardias de reparar o mal.

O episódio também deve ser analisado pelo viés da ética médica. Desconte-se a óbvia realidade de que os cirurgiões que fizeram emplantes com as próteses condenadas não podiam saber que os produtos embalavam más intenções do fabricante. De resto, até que a Anvisa proibisse sua comercialização, eles estavam liberados para uso cirúrgico pela própria agência.
Mas, tratando-se de procedimentos que implicam cuidados especiais, ficam os profissionais obrigados a esclarecer as clientes sobre possíveis reações decorrentes da implantação de silicone — uma providência nem sempre seguida nos consultórios.

Segundo a Sociedade Brasileira de Mastologia, os índices de ruptura dos implantes são em torno de 26% em quatro anos, 47% em dez anos e 69% em 18 anos. Por fim, das queixas recebidas pela Anvisa por seguidos problemas com as próteses, nenhuma partiu dos médicos. São questões em aberto, tanto da parte da agência quanto do lado dos médicos, que devem ser enfrentadas em nome da defesa
dos pacientes.

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