
Setembro Azul
Ellen Radomski
23/09/2025
– “As pessoas abrem e fecham as bocas, mas nenhum som chega até mim, apenas o silêncio, preenchido por gestos curiosos que tento imitar. E então me pergunto: o que é o silêncio, quando nunca se conheceu o som?”
Com essas palavras, busco me colocar no lugar do meu filho, que nasceu com deficiência auditiva, descoberta aos 1 ano e 3 meses. Hoje, com o implante coclear ativado há cerca de três meses, ele pôde, ainda bebê, despertar para o mundo dos sons.
Setembro não traz apenas a primavera, com sua explosão de cores e vida renovada. Também carrega em si o amarelo, o verde e o azul da nossa bandeira, símbolos que nos convidam à reflexão e à conscientização sobre temas que, muitas vezes, estão distantes do nosso cotidiano, mas que, quando nos tocam, transformam a forma como enxergamos a vida.
Setembro é vida em todas as suas formas. Vida na prevenção ao suicídio, simbolizada pelo amarelo. Vida no “sim” à doação de órgãos, representada pelo verde. E vida na visibilidade e valorização da comunidade surda, marcada pelo azul turquesa.
Assim como meu filho, tantas outras pessoas enfrentam desafios invisíveis a muitos de nós. Histórias como a dele nos lembram da importância da empatia, do acolhimento e da valorização das diferenças, porque cada novo som, cada nova cor e cada nova descoberta é, antes de tudo, uma vitória da vida.
A cor azul foi escolhida pela comunidade surda porque, durante o nazismo, pessoas com deficiência, incluindo os surdos, eram obrigadas a usar uma faixa azul no braço para identificação e extermínio. Em memória dessa perseguição, transformou-se o azul turquesa em símbolo de resistência, vida e orgulho de ser surdo. O mês de setembro, por sua vez, foi escolhido por reunir datas marcantes da história e das conquistas da comunidade surda, como a inauguração da primeira escola para surdos no Brasil em 26/09/1857, fundada por Dom Pedro II, além do Dia Internacional das Línguas de Sinais (23/09), Dia Nacional do Surdo (26/09) e do Dia Internacional do Surdo (30/09).
A luta da comunidade surda vai muito além das datas, ela se traduz em vitórias que transformam vidas. Uma das mais significativas foi o reconhecimento da Libras (Língua Brasileira de Sinais) como meio legal de comunicação e expressão, pela Lei nº 10.436/2002, regulamentada pelo Decreto nº 5.626/2005. Ao ser oficializada no Brasil, a Libras passou a ocupar o lugar que lhe é de direito, o de língua viva, que fortalece a identidade cultural dos surdos, valoriza sua história e abre caminhos para uma sociedade mais respeitosa e inclusiva.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 1,5 bilhão de pessoas no mundo vivem com algum grau de perda auditiva, representando cerca de 20% da população global. A Federação Mundial dos Surdos (WFD) estima que existam cerca de 70 milhões de surdos no mundo, sendo que mais de 80% vivem em países em desenvolvimento. Este número representa um desafio social e educacional, pois envolve o acesso à comunicação, à educação inclusiva e às oportunidades de trabalho. Além disso, a diversidade linguística é marcante: existem mais de 300 línguas de sinais diferentes utilizadas em todo o mundo, cada uma com sua gramática e cultura próprias.
Ainda que, com o estímulo de um aparelho, meu filho possa ouvir, ele permanece sendo um surdo que ouve, pertencente a uma comunidade que carrega uma história de lutas e conquistas. E como mãe, sinto que tenho a responsabilidade de incluí-lo, abraçá-lo em sua identidade e, junto com ele, ampliar a voz e a visibilidade de todos os surdos. Porque cada passo dele também é um convite para a construção de uma sociedade mais empática, diversa e verdadeiramente humana.
